INSIGHT #002: O Prestígio de Nolan

Você está vendo atenciosamente?
Todos os truques de mágica consistem em três atos.

O 1º é “o sinal”: o mágico te mostra algo comum. Um maço de cartas, um pássaro ou um homem. Talvez te pedirá para examiná-lo, para provar que é real, inalterável. Mas, claro, provavelmente não é isso.

O 2º ato é “a chance”: o mágico pega a coisa comum e faz disso algo extraordinário. Agora você está procurando pelo segredo, mas não encontrará, porque, claro, não está realmente procurando. Você realmente não quer saber. Precisa ser… enganado.

Mas você ainda não aplaudiu, porque fazer algo desaparecer não é o suficiente. O mágico tem que trazê-lo de volta. Por isso que todo truque de mágica tem o 3º ato. A parte mais difícil, chamada de “o prestígio”.

Christopher Nolan: Mestre da sétima arte.


O diretor Christopher Nolan ficou famoso pelo ótimo Batman Begins e pelo quebra-paradigmas The Dark Knight. Um cara que explicou o motivo dos chifrinhos do Batman merece o meu respeito.
Mas não somente, Nolan fez escola. Dando verossimilhança nos roteiros do Homem-Morcego, ele abriu portas para a Fantasia possível do novo 007 com Daniel Craig, a franquia Iron Man, o repaginado Sherlock Holmes, entre outros. Volto nisso daqui a pouco.

Guy Pearce não se lembra.


Primeiro vá, assista Memento e repare como Nolan constrói a narrativa não-linear, depois volte ao post. Esse filme de trás-pra-frente o colocou em posição de respeito em Hollywood. Assim como o protagonista, o espectador também tem amnésia durante a sessão. Esquece de fatos antes mostrados, lances importantes e é inevitavelmente surpreendido no final (ou seria começo?).
O mesmo efeito de plot é proposto em Insomnia. Al Pacino passa a história toda com muito, muito sono. Quem assiste também; lembro de ter bocejado umas 5 vezes e pescado umas três. Isso não é negativo, mas um efeito de que a proposta da trama aplicada a construção do filme funciona. Nolan realiza isso em todas suas obras, com sucesso.

Por que Bill está na frente do tira na primeira cena saberemos só no final.


Filmado em preto em preto e branco, com câmera 16mm na mão e muitas locações externas nas ruas de Londres, Following combina em sua aparência e narrativa um tributo tanto à nouvelle vague francesa quanto ao policial noir americano, referências recorrentes nos cineastas novatos. Percebe-se aqui um grande exercício – ou rascunho de uma futura marca autoral – para o que se veria nas realizações futuras do diretor. A narrativa não-linear se passa em (pelo menos) três tempos diferentes, com saltos temporais marcados pelas abruptas mudanças no visual do personagem Bill entre uma cena e outra. Uma ação aparentemete sem nexo aqui é justificada ali adiante. Os bem utilizados truques de montagem, a eficiente trilha incidental e o empenhado elenco fazem parecer intrincada uma trama policial que na verdade é bastante simples e seguidora das convenções do gênero. Following, pode-se dizer, foi o primeiro grande truque de Nolan.

Camadas de sonhos e de interpretação.


O recém-lançado Inception mantém a escola do diretor, acrescentando camadas de interpretação e narrativa em sua escola. Ele conseguiu tornar um clímax de 45 minutos atraente, instigante. O final é entregue no começo. Não importa como acaba, mas como se desenvolve o enredo. É sempre assim. O Cobb aqui, inclusive, tem o mesmo nome da primeira incursão de Nolan, Following. Ambos ladrões, mas enquanto o primeiro implanta o outro retira. Não desconfio que o filme de 98 tenha sido um protótipo para Inception. A grande questão deste novo blockbuster (entre várias outras camadas) é a dificuldade de incutir a ideia na mente de outro. Mas não é justamente isso que o marketing e a mídia faz com a massa o tempo todo? É. O que o diretor faz aqui é plantar um princípio de boa narrativa, que vem renovando o Cinema e dando frescor em seus seguidores conceituais, dentro ou fora da sétima arte (como eu, na literatura).

Você está olhando, mas não quer ver.


A obra-prima de Nolan se deu com The Prestige. Um dos filmes mais ricamente roteirizados da década, onde a adaptação supera o original de Christopher Priest (amigos que leram afirmaram isso, ainda não tive acesso ao livro). A magia é a própria película. De tudo que realizou, foi com este trabalho que o diretor conseguiu expressar seu método perfeito: o grande truque é a chave da trama que move toda a história. Mas também é o filme em si, está ali, na construção narrativa, na edição e direção. O mágico Nolan lhe mostra um homem, um pássaro, sendo que há outro, um substituto, um gêmeo, um duplo; ele te leva para um lado, mas o enredo se dirige para o outro. Está aí o prestígio, o maior de todos. Uma aula de como contar uma trama foda.

Risadas mórbidas. Não é pra qualquer um.


NECRÓPOLIS teve várias influências durante sua reescrita em 2007, mais na forma do que no conteúdo (já estabelecido no rascunho de 2005). Nolan foi responsável em boa parte desse processo. Ele é um excelente contador de histórias, sabe conduzir uma narrativa como poucos e seus filmes provam isso, renovando conceitos e reciclando gêneros, dando uma baforada de novidade. Batman Begins mostrou o caminho de como iniciar uma jornada do herói quebrando paradigmas, sombria e sóbria. É verossímel. Dentro de um universo realista, mostra a possibilidade mesmo vindo da Fantasia, sem utilizar de explicações pseudo-científicas ou enfadonhas, bastando a coerência e o bom senso. Dá para explicar a Fantasia com a Realidade? Talvez, mas é certo que dê para explicar a Realidade com a Fantasia, e é isso que o diretor faz. E foi por esse caminho que segui no Livro Um de NECRÓPOLIS. A jornada de Verne em busca da alma do irmão pelo Mundo dos Mortos. Um cético que tem os olhos abertos para essa sinistra existência. Um leque de más opções. A minha busca, como autor, é de tentar fazer o leitor imergir na história, junto do protagonista, participando de suas desventuras, sentido seu medo e aflição, descobrindo que nem tudo é o que parece e que a confiança é uma utopia. A jornada do personagem é dele, mas também minha, e sua. De todos nós.

NECRÓPOLIS: A Fronteira das Almas (da Editora Draco) é o primeiro livro de uma série de dark-fantasy (logo faço um Insight #3 sobre o subgênero) e será lançado entre outubro e novembro, revelando ao mundo minha obra, meu estilo, meus erros e acertos, tal qual Following de Chris Nolan. Será esse livro que dará o tom dos próximos, natural e inevitavelmente uma evolução deste. E como o diretor, indico um caminho, mas levo o leitor para outro. Mostro algo que parece ser, mas não é. Ou ao menos tento.
Ele se foca nos personagens em seus plots, não no cenário. Todo o resto orbita o protagonista, acrescenta na trama e complementa no desenvolvimento da história. O mundo, o universo, passa a integrar o todo, de forma crível, mesmo em Fantasia. Puxa o espectador/leitor para o enredo pela proximidade com o real, e depois o faz mergulhar no quimérico, e deixá-lo viajar em paz, curtindo cada pedaço da obra. Já me identificava com isso por egrégora e apliquei em minha saga. Celebrei o aprendizado, o que assimilei todos esses anos e fiz do meu jeito. Como Verne, quero que o leitor questione a realidade e acredite na Fantasia.

Falar mais é spoiler, só lendo para entender, compreender e assimilar. A verdade é que este post foi uma homenagem ao homem que considero um Mestre em narrativa linear ou não-linear; desviei um foco para lhe dar outro: NECRÓPOLIS. As Desventuras da Vida e da Morte.

Isso é um truque. Você não está olhando onde deveria.


Agora me diga: você acha mesmo que o pião rodar ou não ao fim de Inception dizia algo? Roupa de crianças ou camadas de mundos oníricos?
Reparou no sogro na França que aparece em Nova York horas depois? Reparou na facilidade para se comprar uma companhia aérea em pouco tempo?
O tempo é fluído. Você está olhando para outro lado ou simplesmente não quer enxergar. Não existe o real, Nolan quis dizer, só a Fantasia.

Tudo não passa de um sonho.

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